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9.13.2010

O Metro



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"Sempre gostei da estranheza saudável da vida debaixo de terra. Não pensem que estou a querer ter piada. Apenas estou a tentar dizer que a azafama das estações de metro são incrivelmente acolhedoras. É um mundo frio. Não, não me estou a contradizer.
O metro pode ser um lugar cruel para quem por ele passa e nada vê em volta a não ser o local onde compra o bilhete e entra no respectivo transporte rumo à estação que deseja. Eu tenho uma relação carinhosa com o metro. Adoro a arte que muitos insistem em partilhar nas suas paredes, adoro as pessoas que por lá passam, as que nunca vimos na vida e aquelas que nos são familiares, não porque são amigo de fulano X ou Y, não porque jantam em nossa casa na noite de Natal, mas sim porque são habituais naquele espaço por tantos partilhado. Aconchega-me o coração a melodia que os bravos músicos fazem soar e que embelezam o metro. E por muita tristeza que as suas histórias possam ter, venero a coragem e o sorriso no rosto dos seres humanos que tal como eu vêem neste ambiente subterrâneo um 'tecto-amigo'. "

Ao ler tais palavras escritas numa folha de papel amarrotada, colada na parede de uma das margens da estação com um simplório autocolante encontrado certamente na rua depois de algum miúdo deitar o pacote das batatas fritas para o chão - desconfio - sorri para mim mesmo. Olhei em redor e vi a rapariga de gorro cinzento e casaco verde tropa de tal modo desgastado pelo tempo, o que me leva a pensar que lhe foi dado por alguém que já não o considerava 'vestível', que todos os dias vagueava pela mesma paragem que eu. Nunca consegui desviar o olhar. Ela era (e é) incrivelmente bonita. Rasguei o papel da parede, ainda que com algum cuidado. não era minha intenção rasgá-lo. Corri na sua direcção e toquei-lhe no ombro. Só consegui dizer "Desculpa?" pois as palavras ficaram encravadas na garganta. Ela tinha os olhos mais brilhantes que alguma vez vira. Olhamo-nos mutuamente até que reparou no papel que tinha na mão. Esboçou um enorme sorriso que acabou por confirmar a minha teoria: ela era a autora.
Como se mais ninguém existisse naquele espaço atolado às 8h da manhã de uma rabugenta Segunda-feira, esticou a mão dizendo: - Olá, sou a Alice.
Retribuí, sorrindo após me apresentar. E a partir desse dia vagueamos juntos pelo metro...

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